Fim da série de sinastrias com um brinde quase espiritual
Encerramos, com este artigo, a série de sinastrias em vinhos, inspirada no conceito da Astrologia que analisa as compatibilidades entre nativos de diferentes signos. A série foi uma espécie de segunda temporada do Zodíaco dos Vinhos, que escrevi anteriormente para sugerir quais seriam os signos astrológicos das uvas e dos vinhos mais produzidos mundialmente.
Chegamos ao período do 12º signo do ciclo zodiacal anual, Peixes, que vai de 19 de fevereiro a 20 de março. Como já apresentado no Zodíaco dos Vinhos, o signo de Peixes tem como elemento mitológico constituinte a associação entre Afrodite e Eros, que se camuflam na forma de dois peixes e se jogam no rio para escapar do monstro Tifão. Uma narrativa que remete à nossa dimensão inconsciente, com seus laços fantasiosos e compensatórios, e que, por ser muito presente em Peixes, predispõe o nativo ao escapismo.
O signo de Peixes tem como elemento a Água e como planeta regente Netuno – um gigante muito frio e distante do Sol. Esses aspectos se somam para criar o imaginário do mundo oceânico no qual os piscianos estão imersos. Meio realidade, meio sonho – assim seria o estar no mundo dos piscianos, considerados pessoas sensíveis, intuitivas, emotivas, espiritualizadas e de humor instável.
Em termos de sinastria, penso que os relacionamentos com esse signo poderiam funcionar com dois perfis quase antagônicos. Primeiro, com aqueles que consigam entender seu ritmo de fruição mais emocional e instável, por se reconhecerem como semelhantes, como partes desse universo. Ou, pelo contrário, com aqueles bem “pé no chão”, que não se abalam pelos escapismos e variações de humor do pisciano, fazendo um contraponto ao seu perfil.
Os textos de sinastria apresentam um bom prognóstico para o encontro do pisciano com dois signos a partir dessas perspectivas. Um deles é Escorpião, que também tem a Água como elemento regente e é bastante movido pelas paixões e conexões mais profundas. O outro é o signo complementar de Peixes: Virgem. Razão, pragmatismo e foco inabaláveis até pelo escapismo pisciano, podendo lhe oferecer um equilíbrio por meio do vívido senso de realidade que possui.
Vamos aos vinhos, já que esta é a sinastria a que se propõe este texto!
Dentre os vinhos escolhidos como nativos de Escorpião, considero que o do primeiro decanato, com leve influência do signo antecedente, é o mais adequado para atrair o paladar pisciano, pois conjuga estrutura e intensidade com uma dose de suavidade.
O vinho do primeiro decanato de Escorpião é de uma uva branca cada vez mais difundida no sudeste e sul da França, que dá origem a um vinho branco de perfil mais untuoso, com acidez mediana e aromas de frutas amarelas de caroço, como pêssego e damasco, além de notas florais. A Viognier é a uva desse vinho envolvente, sem muitas arestas, que conjuga estrutura e suavidade, muito afinada com o perfil dos nativos de Peixes.

O segundo vinho é o do primeiro decanato de Virgem. Todos os vinhos virginianos são complexos, frutos de um trabalho metódico e detalhista, alinhado com o caráter mais perfeccionista do signo. Podemos dizer que são vinhos mais respeitados do que populares. E este é respeitadíssimo, pois resulta de uma variedade italiana muito estrelada, que não se estabelece em qualquer lugar e requer tempo para gerar vinhos altamente complexos, apreciados por um público exigente. Trata-se da Nebbiolo, cepa tinta, rainha absoluta dos vinhos do Piemonte.
Alguém pode dizer que esse perfil não nos remete aos piscianos. De fato, os vinhos piscianos, por exemplo, apresentam um caráter mais dócil e com certa suavidade. Essa sinastria, como eu disse, é por oposição. A Nebbiolo é uma uva que requer muitos cuidados, e seus vinhos, quando jovens, podem ser muito tânicos e ácidos. A questão é que a qualidade dos grandes vinhos da Nebbiolo requer tempo para se revelar e, mesmo quando se apresenta, não é para apreciadores apressados.
É nesse aspecto que esse vinho pode capturar o pisciano: pela qualidade quase misteriosa que guarda em suas camadas profundas de fragrâncias, que se abrem lentamente ao degustador mais imersivo. Por isso, alguns consideram o Barolo, um dos principais vinhos da Nebbiolo, um vinho de meditação.